Cotidiano | 21/07/2026 | Atualizado em: 21/07/26 ás 16:14

Antes das grandes fábricas: como Jaraguá do Sul se tornou um dos maiores polos industriais de SC

A história de como uma colônia agrícola deu origem a um dos maiores polos industriais de Santa Catarina, com uma economia diversificada e empresas reconhecidas em todo o Brasil.

PUBLICIDADE
Antes das grandes fábricas: como Jaraguá do Sul se tornou um dos maiores polos industriais de SC

A diversificação industrial ajudou a transformar Jaraguá do Sul em um dos principais polos econômicos de Santa Catarina. | Fotos: Divulgação

Resumo completo

Primeira indústria: o engenho de açúcar de Emílio Carlos Jourdan, montado em 1876 perto da atual ponte Olavo Marquardt

Fonte do capital inicial: superávit da lavoura, guardado pelos colonos com os comerciantes locais

Virada de matriz econômica: entre as décadas de 1960 e 1970, quando a indústria suplanta a agricultura

Empurrão federal: criação do BNDE em 1952 e do FINAME em 1964

Marca do parque atual: diversidade de setores, da metalurgia ao vestuário

Muito antes de Jaraguá do Sul ser conhecida pelas grandes indústrias, a economia da cidade girava em torno da agricultura. Foi da riqueza produzida no campo, somada ao trabalho dos primeiros colonizadores e ao espírito empreendedor de quem chegou à região, que nasceu a base de um dos maiores polos industriais de Santa Catarina.

Essa transformação levou décadas. Passou por uma tentativa frustrada de produzir açúcar, pela chegada da ferrovia, pelo crescimento do comércio e pela criação de pequenas manufaturas que, com o tempo, deram origem às empresas responsáveis por projetar o nome da cidade para todo o Brasil.

Esse percurso foi reconstituído no documento Jaraguá do Sul, Cento e Cinquenta Anos, do historiador Egon L. Jagnow, produzido pela Secretaria Municipal de Educação no ano em que a cidade completa 150 anos. O material ajuda a entender como uma colônia agrícola encravada na mata virou um dos polos industriais mais diversos do estado.

>> Esta reportagem integra uma série especial do JDV que resgata histórias, personagens e curiosidades de Jaraguá do Sul, em homenagem aos 150 anos de fundação da cidade.

A primeira tentativa de industrialização

A relação de Jaraguá do Sul com a indústria começou praticamente junto com a fundação da cidade. Em 1876, o engenheiro Emílio Carlos Jourdan arrendou terras da Princesa Isabel com um objetivo ambicioso: implantar uma grande plantação de cana-de-açúcar e construir um engenho para produzir açúcar, uma atividade que vivia um período de forte crescimento no Brasil.

Emílio Carlos Jourdan, engenheiro responsável pela primeira tentativa de industrialização de Jaraguá do Sul no século XIX.
Retrato de Emílio Carlos Jourdan | Foto: Arquivo

Um pouco abaixo de onde hoje fica a ponte Olavo Marquardt, Jourdan montou um grande pavilhão. Além do engenho, o espaço reunia uma olaria, uma ferraria, um moinho e uma serraria, todos movidos por motores a vapor alimentados com lenha. Para a época, tratava-se de uma estrutura inédita na região.

O projeto, porém, esbarrou em um problema que marcaria os primeiros anos da colonização: a falta de infraestrutura. Sem estradas e sem uma ligação fluvial segura com o Porto de São Francisco do Sul, Jourdan não conseguia escoar a produção de açúcar. Os altos investimentos feitos no empreendimento também pesaram contra o negócio e, em 1888, ele desistiu da iniciativa.

A riqueza do campo financiou as primeiras indústrias

Depois da colonização efetiva, iniciada na década de 1890, a economia da região passou a girar em torno da agricultura. Os colonos produziam principalmente para o próprio sustento e comercializavam apenas o excedente. Foi justamente essa sobra que começou a movimentar o comércio local e, mais tarde, deu origem às primeiras manufaturas.

Naquela época, havia pouco dinheiro em circulação. Muitos negócios eram feitos por meio do escambo, o tradicional “toma lá, dá cá”. Quando havia algum lucro, os agricultores costumavam deixar o dinheiro guardado com os comerciantes, por receio de roubos enquanto trabalhavam nas lavouras.

Esse costume acabou desempenhando um papel decisivo no desenvolvimento da cidade. Sem bancos de desenvolvimento ou linhas de crédito, os comerciantes utilizavam, com autorização dos proprietários, os recursos deixados sob sua guarda para ampliar seus próprios negócios. Em outros casos, os colonos emprestavam dinheiro em troca de juros.

“O superávit agrícola foi o propulsor inicial, tanto do crescimento do comércio como das pequenas indústrias que havia”, explicou o pesquisador Paulo Nozella, citado por Egon L. Jagnow no documento.

As primeiras manufaturas também mantinham uma ligação direta com a agricultura. Ferrarias, marcenarias, fábricas de carroças, olarias e sapatarias produziam ferramentas e equipamentos utilizados pelos colonos. Já açougues, queijarias, serrarias, alambiques, atafonas e fecularias transformavam a matéria-prima produzida nas propriedades rurais em produtos com maior valor agregado.

A ferrovia mudou o destino da cidade

Se a falta de caminhos fez a primeira tentativa de industrialização fracassar, foi justamente um novo caminho que mudou o destino econômico de Jaraguá do Sul.

Ainda durante a medição das terras da Princesa Isabel, Emílio Carlos Jourdan já defendia que o desenvolvimento da região dependia da construção de uma ferrovia. A ideia levou quase três décadas para sair do papel.

Os trilhos chegaram ao então povoado em 1907 e, em 1913, a ligação com a ferrovia São Paulo-Rio Grande, em Mafra, conectou Jaraguá do Sul às principais cidades do Sul do Brasil.

Fachada da Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul vista da rua, com placa identificadora no alto do prédio e um jeep antigo no primeiro plano, registro do período em que a estação era o centro social da cidade
Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul em registro histórico provavelmente dos anos 1950. O prédio, inaugurado em 1943, foi por décadas o ponto de encontro mais movimentado da cidade. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

A mudança foi decisiva. Pela primeira vez, produtores e comerciantes passaram a contar com uma estrutura eficiente para transportar mercadorias e receber insumos. Jaraguá do Sul deixou de ser uma região isolada para se tornar um importante ponto de integração ferroviária no Norte catarinense.

O novo cenário impulsionou diferentes atividades econômicas. Hotéis foram abertos para atender passageiros, o transporte de cargas ganhou força e novas empresas passaram a enxergar a cidade como um lugar estratégico para investir.

Passageiros aguardam embarque na Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul em registro provavelmente dos anos 1970
Passageiros reunidos na plataforma da Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul em registro provavelmente dos anos 1970. | Foto: Autor desconhecido/Site Estações Ferroviarias

Quando a indústria superou a agricultura

Durante décadas, agricultura e indústria cresceram lado a lado. Mas foi entre as décadas de 1960 e 1970 que essa relação começou a mudar definitivamente.

Até então, mais de 80% da população vivia na área rural. Com a expansão das fábricas, milhares de trabalhadores passaram a migrar do campo para a cidade. Muitos continuavam morando em comunidades rurais, mas já tinham na indústria sua principal fonte de renda.

Ao mesmo tempo, políticas nacionais de incentivo ao desenvolvimento facilitaram o acesso ao crédito para investimentos industriais. A criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1952, e do Finame, voltado à compra de máquinas e equipamentos, ampliou as possibilidades de crescimento das empresas brasileiras.

Primeira fábrica da WEG em Jaraguá do Sul, inaugurada em 1961.
Foto: Arquivo/WEG

Jaraguá do Sul soube aproveitar esse momento. Empresas já estabelecidas ampliaram suas operações, novos empreendedores surgiram e a cidade iniciou um ciclo de industrialização que transformaria definitivamente sua economia.

Metalurgia, motores e malha: a diversidade que protegeu a cidade

A partir dos anos 1960, dois setores dispararam. A metalurgia cresceu fazendo máquinas e equipamentos. O setor eletromecânico viu nascer novas indústrias e se tornou um dos mais importantes do município. Foi nesse ambiente que três amigos, o eletricista Werner Ricardo Voigt, o administrador Eggon João da Silva e o mecânico Geraldo Werninghaus, fundaram a Eletromotores Jaraguá em 16 de setembro de 1961, depois rebatizada com as iniciais dos sócios: WEG.

O vestuário seguiu o mesmo embalo. A chegada da camiseta T-shirt como peça de uso diário, na década de 1960, fez a malharia investir na meia-malha e crescer. Em 1964, Pedro Donini abriu em Jaraguá uma fábrica de chapéus de praia que viraria a Marisol, têxtil a partir de 1968. No mesmo 1968 nascia o Grupo Malwee. As três ainda hoje têm sede na cidade.

Linha de produção da Malwee em Jaraguá do Sul durante as primeiras décadas de funcionamento da empresa.
Registro histórico da linha de produção da Malwee em Jaraguá do Sul, empresa fundada em 1968 e que ajudou a consolidar o setor têxtil no município. | Foto: Grupo Antigamente em Jaraguá

A marca registrada do parque industrial jaraguaense passou a ser a diversidade. E foi ela que protegeu a economia nas crises das décadas de 1980, 1990 e em 2008. Quando um setor afundava, outro estava em expansão e absorvia a mão de obra dispensada. Esse arranjo deu à cidade um crescimento econômico quase constante, raro para um município do interior.

Como isso impacta sua vida?

A estrutura industrial diversificada que começou a se formar há um século e meio sustenta a posição da cidade até hoje: pelos dados do IBGE divulgados em dezembro de 2025, Jaraguá do Sul tem o 7º maior PIB de Santa Catarina, com a indústria respondendo por perto de metade da economia local, segundo o Observatório FIESC. Por isso, entender como a cidade chegou até aqui é conhecer o início dessa história.

Notícias de Jaraguá no seu WhatsApp Fique por dentro de tudo o que acontece na cidade e região.
Entrar no Canal

Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Hospedagem por ServerDo.in
©️ JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região - Todos os direitos reservados.
wesdev.com.br