Cotidiano | 18/07/2026 | Atualizado em: 21/07/26 ás 14:52

O que princesas da família imperial têm a ver com 7 bairros de Jaraguá do Sul? A história por trás dessas terras

Muito antes da fundação do município, parte do território de Jaraguá do Sul pertenceu a duas princesas da família imperial brasileira. Essa herança ajudou a formar sete bairros da cidade.

PUBLICIDADE
O que princesas da família imperial têm a ver com 7 bairros de Jaraguá do Sul? A história por trás dessas terras

Arte: JDV | Retratos: Reprodução/Wikimedia Commons

Resumo completo

As duas princesas: Isabel, filha de Dom Pedro II, e Francisca, irmã do imperador e tia de Isabel

Terras de Isabel: deram origem ao atual centro de Jaraguá do Sul

Terras de Francisca: bairros Vila Lalau, Baependi, Czerniewicz, Amizade, Três Rios do Norte e Santo Antônio

Origem do nome de Joinville: Francisca casou com o Príncipe de Joinville, da realeza francesa

Apelido histórico: a margem das terras de Francisca era chamada de "Goiaben Seite", a Margem das Goiabeiras

Muito antes de Jaraguá do Sul existir como município, parte do território que hoje forma a cidade pertencia a duas mulheres importantes da história do país; elas pertenciam à família imperial brasileira. As terras, recebidas como dote de casamento por Dona Francisca e pela Princesa Isabel em momentos diferentes, acabaram dando origem a bairros da cidade, como Baependi, Vila Lalau, Czerniewicz, Amizade, Três Rios do Norte e Santo Antônio.

Mas como essas terras chegaram às mãos das princesas? E de que forma elas passaram à posse dos colonizadores, até se transformarem em parte do município que hoje conhecemos?

Para ajudar a reconstruir essa trajetória – da Coroa até a formação do município -, o JDV consultou o documento Jaraguá do Sul, Cento e Cinquenta Anos, do pesquisador Egon L. Jagnow, publicado pela Secretaria Municipal de Educação; além de documentos públicos e registros oficiais do município.

>> Esta reportagem integra uma série especial do JDV que resgata histórias, personagens e curiosidades de Jaraguá do Sul, em homenagem aos 150 anos de fundação da cidade.

Duas princesas, duas histórias

Embora tenham vivido em épocas diferentes, Dona Francisca e a Princesa Isabel acabaram ligadas ao território de Jaraguá do Sul pelo mesmo motivo.

As duas receberam grandes extensões de terras em Santa Catarina como patrimônio dotal, uma tradição da monarquia brasileira que destinava áreas públicas às princesas por ocasião do casamento. Essas propriedades podiam ser administradas, arrendadas ou vendidas e, com o passar dos anos, tornaram-se base para projetos de colonização que mudariam a ocupação do Norte catarinense.

Foi assim que a história da família imperial acabou cruzando o caminho de Jaraguá do Sul.

Dona Francisca e o nascimento da Colônia Dona Francisca

Dona Francisca Carolina de Bragança nasceu no Rio de Janeiro, em 1824. Era filha de Dom Pedro I e da imperatriz Maria Leopoldina, além de irmã de Dom Pedro II.

Quando tinha apenas seis anos, viu o pai abdicar do trono brasileiro e retornar a Portugal. Francisca permaneceu no Brasil ao lado dos irmãos e foi criada na Corte Imperial.

Em 1843, casou-se com Francisco de Orléans, príncipe de Joinville e filho do rei Luís Filipe I, da França. Como parte do contrato matrimonial, recebeu cerca de 25 léguas quadradas de terras na então Província de Santa Catarina.

Retrato de Dona Francisca, princesa brasileira cujas terras deram origem a bairros de Jaraguá do Sul.
Dona Francisca recebeu terras dotais que deram origem à Colônia Dona Francisca e a parte do território de Jaraguá do Sul. Pintura de Franz Xaver Winterhalter. | Reprodução/Wikimedia Commons.

Essas áreas, delimitadas ainda durante o reinado de Dom Pedro II, deram origem ao patrimônio conhecido como Colônia Dona Francisca.

Na época, a região era praticamente desabitada por colonizadores europeus. As terras se estendiam desde as margens do Rio Cachoeira até alcançar a margem esquerda do Rio Itapocu, abrangendo parte do território que hoje pertence a Jaraguá do Sul.

Ou seja, décadas antes da fundação do município, uma parcela significativa do atual território jaraguaense fazia parte do patrimônio de Dona Francisca.

A Revolução Francesa mudou o destino dessas terras

Poucos anos depois do casamento, a história tomou um rumo inesperado. Em 1848, a Revolução Francesa derrubou o rei Luís Filipe I. A família real foi obrigada a deixar o país e passou a viver no exílio.

Sem os recursos de antes, o príncipe de Joinville e Dona Francisca decidiram negociar suas terras brasileiras.

O acordo foi firmado com a Sociedade Colonizadora de Hamburgo, responsável por trazer imigrantes europeus para Santa Catarina. A venda abriu caminho para a criação da Colônia Dona Francisca, oficialmente instalada em 1851.

Foi a partir desse projeto que milhares de imigrantes, principalmente alemães, chegaram ao Norte catarinense.

Com o passar das décadas, a colonização ultrapassou os limites de Joinville e avançou pelo Vale do Itapocu, alcançando regiões que hoje fazem parte de Jaraguá do Sul.

A princesa que herdou outro lado do vale

Se Dona Francisca ajudou a escrever a história da margem esquerda do Rio Itapocu, a margem direita teve outra protagonista.

Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança nasceu no Rio de Janeiro em 1846. Filha mais velha de Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina, tornou-se herdeira do trono brasileiro ainda na infância, após a morte dos dois irmãos homens.

Décadas mais tarde, entraria para a história do país ao assinar a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil.

Muito antes disso, porém, seu nome já estava ligado ao território onde surgiria Jaraguá do Sul.

Retrato da princesa Isabel, herdeira do Império do Brasil, que recebeu terras dotais na região onde hoje fica parte de Jaraguá do Sul.
Princesa Isabel recebeu como dote terras que deram origem a parte do território de Jaraguá do Sul. Pintura de Édouard Viénot (1804–1884). | Foto: Divulgação/Wikimedia Commons.

Em 1864, Isabel casou-se com o príncipe francês Gastão de Orléans, o Conde d’Eu. Como acontecera com Dona Francisca anos antes, o casamento foi acompanhado pela criação de um patrimônio dotal. Em 1870, uma lei imperial instituiu oficialmente as terras destinadas à princesa em Santa Catarina, abrangendo áreas devolutas nas regiões de Grão-Pará, atual Orleans, e Joinville.

Foi justamente nesse patrimônio que começaria a história da Colônia Jaraguá.

O sonho de Emílio Carlos Jourdan

Em 1875, o engenheiro e coronel honorário do Exército Brasileiro Emílio Carlos Jourdan recebeu a missão de medir cerca de 25 léguas quadradas no Vale do Itapocu e no Rio Negro.

No ano seguinte, assinou um contrato de arrendamento de aproximadamente 430 hectares das terras pertencentes à Princesa Isabel e iniciou um projeto ambicioso de colonização.

Retrato de Emílio Carlos Jourdan, fundador de Jaraguá do Sul, em uniforme militar com fileira de botões e dragonas
Montagem da equipe do JDV, com auxílio de inteligência artificial, a partir de foto original de Emílio Carlos Jourdan

Jourdan instalou o chamado Estabelecimento Jaraguá entre os rios Jaraguá e Itapocu. Além de dividir lotes para futuros colonizadores, implantou um engenho de açúcar, serraria, olaria, engenho de fubá e de mandioca, empregando dezenas de trabalhadores.

Era a primeira tentativa organizada de ocupação da área que mais tarde daria origem ao município. O empreendimento, porém, enfrentou dificuldades.

Após disputas administrativas, mudanças políticas e problemas envolvendo a posse das terras, Jourdan abandonou o projeto em 1888. Poucos anos depois, durante a Revolução Federalista, parte das instalações foi destruída.

Da Coroa para o Estado

A Proclamação da República, em 1889, também mudou o destino das terras imperiais. Os patrimônios dotais deixaram de pertencer à família imperial e passaram para a União. Em seguida, ficaram sob administração do governo de Santa Catarina.

Foi nesse período que a colonização ganhou novo impulso. Enquanto as terras da antiga Colônia Dona Francisca continuavam avançando pela margem esquerda do Rio Itapocu, o Estado passou a incentivar a ocupação da margem direita por imigrantes alemães, italianos e húngaros.

Pouco a pouco, os dois movimentos de colonização, que haviam começado de forma independente, passaram a se encontrar no Vale do Itapocu.

Conheça a história de Max Schubert, pioneiro ligado à formação de Jaraguá do Sul
Jaraguá do Sul em 1898. | Foto: Reprodução Grupo Antigamente Jaraguá do Sul

Uma cidade que nasceu dessas terras dotais

A formação de Jaraguá do Sul resultou de dois processos de colonização que avançaram em lados diferentes do Rio Itapocu.

Na margem esquerda, as terras de Dona Francisca, vendidas à Companhia Colonizadora de Hamburgo, deram origem à Colônia Dona Francisca, fundada em 1851. Com a expansão da colonização a partir de Joinville, esse território alcançou a região que hoje integra Jaraguá do Sul.

Segundo o pesquisador Egon L. Jagnow, dessa ocupação surgiram áreas que atualmente correspondem aos bairros Vila Lalau, Baependi, Czerniewicz, Amizade, Três Rios do Norte e Santo Antônio, além da localidade de Ribeirão Grande do Norte.

Na margem direita, as terras do patrimônio dotal da Princesa Isabel serviram de base para a implantação da Colônia Jaraguá. Em 1876, Emílio Carlos Jourdan arrendou 430 hectares na região entre os rios Itapocu e Jaraguá, onde iniciou o loteamento das terras e instalou as primeiras estruturas da colônia. Após a Proclamação da República, essas áreas passaram ao domínio do Estado e a colonização foi retomada.

Conheça a história de Max Schubert, pioneiro ligado à formação de Jaraguá do Sul.
Vista aérea de Jaraguá do Sul por volta de 1930. | Foto: Arquivo Histórico/Colorização IA

Segundo Jagnow, foi o encontro desses dois movimentos de ocupação que formou a base territorial do município emancipado de Joinville em 26 de março de 1934. Nove anos depois, a cidade passou a adotar oficialmente o nome de Jaraguá do Sul.

Nem todo o território, porém, foi ocupado ao mesmo tempo. Regiões como Vila Chartres e Santa Luzia, conhecidas na época como Pântano Mole, permaneceram praticamente desabitadas por décadas devido ao solo alagadiço. A ocupação ganhou força apenas na década de 1920, com a introdução do cultivo de arroz irrigado por descendentes de imigrantes italianos.

Como isso impacta sua vida?

Saber que Baependi, Czerniewicz, Vila Lalau e Amizade nasceram das terras de uma princesa que viveu na Europa não muda o aluguel nem o trajeto até o trabalho. Mas explica por que esses bairros existem onde existem, e dá nome e origem ao chão que normalmente a gente atravessa sem pensar. Para quem mora em Jaraguá do Sul, é a diferença entre habitar um endereço e entender uma história.

Notícias de Jaraguá no seu WhatsApp Fique por dentro de tudo o que acontece na cidade e região.
Entrar no Canal

Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Hospedagem por ServerDo.in
©️ JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região - Todos os direitos reservados.
wesdev.com.br