Campanha inspira arquiteto a reimaginar fachada do antigo Salão Doering, símbolo das noites de Jaraguá do Sul
No Czerniewicz, o prédio reuniu bandas, orquestras e gerações inteiras em bailes. Hoje sem uso, virou tema de uma proposta de preservação divulgada por moradores.
Montagem ilustrativa gerada por inteligência artificial a partir de três imagens: o casarão antigamente, o estado atual e a proposta do arquiteto Everton Bitencourt. Projeção conceitual, não corresponde a obra existente.
Resumo completo
O que foi: salão de festas e bailes, um dos principais pontos de encontro de Jaraguá do Sul
Onde fica: Rua Roberto Ziemann, bairro Czerniewicz
Origem: erguido pela família Sohn, passou aos Doering após a morte de Henrique Sohn, no fim dos anos 1940
Auge dos bailes: do fim dos anos 1950 a meados dos anos 1960, sob organização da sociedade Acaraí
Fim como salão de baile: 1993
Situação atual: imóvel privado, sem uso, tema de uma proposta de preservação divulgada por moradores
Quem viveu em Jaraguá do Sul entre as décadas de 1950 e 1980 provavelmente dançou, namorou ou pelo menos ouviu falar de um lugar famoso no bairro Czerniewicz. O antigo Salão Doering foi um dos principais palcos da vida social da cidade por décadas, e o nome resistiu tanto que continuou servindo de ponto de referência em anúncios de imóveis até os anos 2000, muito depois de a última festa ter acabado.
O prédio que abrigava o salão hoje está sem uso na Rua Roberto Ziemann. Foi esse cenário que levou o escritor Nelson Pereira a publicar, nas redes sociais, um apelo pela preservação do casarão, gesto que inspirou uma proposta de recuperação assinada pelo arquiteto Everton Bitencourt.

A proposta de preservação
Por meio de um vídeo, o escritor Nelson Pereira, que mora perto do salão, decidiu provocar uma corrente entre quem viveu bons momentos ali.
Ele mesmo chegou a Jaraguá do Sul em 1978 e frequentou o salão nos anos 1980 e 1990. Em seu relato, descreve o casarão como um espaço que vibrava com música e encontros nas noites de fim de semana, e lamenta vê-lo hoje, em suas palavras, “abandonado, consumido pelo tempo e pelo silêncio”.
O apelo chegou ao arquiteto Everton Bitencourt, que frequentou o salão nos anos 1980 e resolveu transformar o pedido em uma proposta visual. Ele buscou imagens de como o prédio se encontra hoje e desenhou um estudo de recuperação, que ele mesmo classifica como conceitual.

Preservar a fachada e assumir o novo
A proposta parte de uma escolha arquitetônica. Em vez de reconstruir o prédio inteiro imitando o estilo antigo, Bitencourt defende preservar apenas as paredes frontal e laterais, que concentram a identidade histórica do imóvel, e erguer atrás delas uma estrutura contemporânea, deixando claro o contraste entre as duas épocas.
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Bitencourt critica o que chama de “falso histórico”, a reconstrução de um prédio antigo como se fosse original. Para ele, restaurar é preservar o que ainda existe, enquanto reformar pode significar substituir elementos e criar uma reprodução sem autenticidade. Por isso, defende manter a fachada histórica e assumir o restante como uma intervenção contemporânea, solução adotada em projetos de preservação em diferentes países.
Ele pondera ainda que, pelo estado aparente do prédio, um restauro completo provavelmente já não seria viável, já que boa parte da estrutura precisaria ser substituída. Por isso, sua proposta se concentra em salvar o que conta a história: a fachada. O arquiteto ressalva que não conhece o interior do imóvel nem sua real situação.

Na ilustração, Bitencourt identificou o prédio como “arquivo histórico” apenas como uma homenagem, sem sugerir um uso específico. Para ele, o imóvel poderia abrigar diferentes atividades, como um escritório, um coworking, um museu ou um espaço de entretenimento. O objetivo, afirma, é estimular um debate sobre a preservação do patrimônio e a valorização da paisagem urbana.
>> Vale aqui um registro importante: o imóvel é particular. Qualquer preservação depende da vontade dos proprietários, e não há, até aqui, projeto oficial ou decisão do poder público sobre o prédio.





A publicação que reacendeu memórias
A proposta teve um efeito imediato: encheu de relatos de quem viveu o salão. Em poucas horas, dezenas de moradores comentaram lembranças das noites ali passadas, num retrato de como o Doering marcou uma geração.
Os relatos se repetem num mesmo tom. Gente que ia de sexta a domingo, que atravessava a antiga ponte pênsil de madrugada na volta pra casa, que lembra da luz negra fazendo as roupas brancas brilharem na pista. Muitos contam que passavam a noite entre o Doering e o Vitória, na Ilha da Figueira, dois pontos do mesmo circuito. Uma parte expressiva das mensagens converge num único pedido: que o prédio não seja esquecido.

Histórias de quem frequentou o salão
Entre os que frequentaram o salão na juventude está Udo Voigt, hoje com 80 anos. Ele lembra que as noites eram embaladas por bandas da região, entre elas a Lira Aurora e conjuntos vindos de Pomerode e Blumenau. A bebida da vez, conta, era refrigerante misturado com pinga.
Uma das lembranças mais marcantes de Udo Voigt aconteceu justamente na pista de dança. Segundo ele, foi expulso do salão depois de aceitar o convite de uma jovem que era cortejada por outro rapaz.
“Um dia fui dançar com a moça e me expulsaram do salão. Na verdade, ela me chamou para dançar”, lembra.
Ele conta ainda que o Doering era um dos principais salões de baile da cidade. Dividia as noites com outros lugares, como o Baependi e o Amizade, este último ainda em funcionamento.

O famoso dosador do seu Doering
Um detalhe do balcão ainda é lembrado por quem frequentava o salão. Segundo o arquiteto Everton Bitencourt, o “seu Doering” usava um risco na parede para medir as doses de bebida que servia aos clientes. Encostava o copo na marca e enchia o copo até aquele ponto.
O ritual virava brincadeira nas mãos da turma. Muitas vezes, enquando ele estava servindo, alguém o chamava de propósito no balcão. Ao virar o rosto, distraído, esquecia de desvirar a garrafa, e a dose passava do risco. Dependendo do momento, deixava o excesso para o cliente ou recolhia para o próximo copo.

Como surgiu o Salão Doering
A origem do espaço é anterior ao nome que ficou na memória da comunidade. A construção foi erguida pela família Sohn, e Henrique Sohn era cunhado de Leopoldo Doering, casado com uma irmã dele. Depois da morte de Sohn, no fim da década de 1940, a administração passou à família Doering, que manteve e ampliou o negócio.
Foi sob os Doering que o salão virou instituição. A família mantinha uma pensão anexa e promovia festas, tardes dançantes e soirées. Registros da imprensa local apontam uma ampliação do espaço em 1960, quando o salão já era um dos endereços mais movimentados da cidade nos fins de semana. Nos anos 1970, o local acompanhou a moda das discotecas e chegou a funcionar como a Dancin Doering.

As orquestras e os bailes da Acaraí
Entre o fim dos anos 1950 e meados dos anos 1960, o Salão Doering foi o principal palco dos eventos da Sociedade de Atiradores Progresso, que depois se tornou a S.D. Acaraí. Arno Henschel e a esposa, Traude, coordenavam o departamento social do clube, ao lado de nomes como os irmãos Levinus e Vergundes Krause.
Eram eles que contratavam as orquestras, e a lista dá a dimensão do que era tocado nas noites: Cassino de Sevilha, Los Gavilanes de Espana, Os Suspiros d’Espanha, Os Marimbas del México e Francisco Petrônio passaram pelo assoalho do Doering. Os relatos da época registram que a fama do salão atraía público de toda a região.

Uma peça em alemão numa noite de 1962
Nem só de baile viveu o salão. Em 18 de agosto de 1962, a Sociedade Atiradores Progresso levou ao palco do Doering a peça teatral Seine letzte Fahrt, em três atos e falada em alemão, encenada pela Sociedade Lírica de Joinville. Depois da apresentação, veio o baile, animado pela Jazz Continental.
O episódio ficou registrado como um dos momentos marcantes da trajetória do salão, resgatado pela imprensa local trinta anos depois, em 1992. Ele mostra o peso da herança germânica na vida cultural da cidade naquele período, quando uma peça inteira em alemão lotava uma casa de espetáculos no interior catarinense.

O nome que sobreviveu ao fim do salão
As atividades como salão de baile terminaram em 1993. Dali em diante, o espaço foi alugado a outros estabelecimentos, entre eles a boate Scorpions. Mas o nome não saiu de circulação.
Ao longo dos anos 1990 e até 2001, o “antigo salão Doering” seguiu aparecendo em anúncios de imóveis como ponto de referência para localização. Bares, lanchonetes e salões de beleza da vizinhança se anunciavam como “defronte” ou “perto” do Doering.

A primeira sede fixa da lanchonete Frank, aberta em 1988, funcionava ali perto, no mesmo trecho da Roberto Ziemann. O nome do salão resistiu na cidade mesmo depois de as festas terminarem.
>> Leia também: Fim de uma era! Após quase 40 anos de história, Frank Lanches deixa saudade em Jaraguá do Sul
Como isso impacta sua vida?
Se você passa pela Roberto Ziemann, provavelmente já viu o prédio sem saber que ali dançou uma geração inteira de Jaraguá do Sul. A memória do Salão Doering é um dos pedaços da história da cidade que sobreviveram na lembrança de quem viveu, e em anúncios amarelados de jornal. O que a cidade guarda e o que deixa pelo caminho é uma conversa que a proposta divulgada por moradores acaba de recolocar na mesa.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.