Cotidiano | 01/07/2026 | Atualizado em: 01/07/26 ás 10:51

Quem foi Heinrich Marquardt, o pioneiro por trás da primeira ponte e da comunidade luterana de Jaraguá do Sul

Imigrante alemão movido pela iniciativa, ele abriu comércio e serraria, ergueu a primeira ponte do Itapocu e cedeu a casa que foi berço de duas igrejas e duas escolas da cidade.

PUBLICIDADE
Quem foi Heinrich Marquardt, o pioneiro por trás da primeira ponte e da comunidade luterana de Jaraguá do Sul

O antigo povoado de Jaraguá do Sul, com a primeira ponte de madeira sobre o Rio Itapocu ao fundo.

Resumo completo

Origem: nascido na Pomerânia, Alemanha, em 7 de dezembro de 1863

Fixação em Jaraguá: estabeleceu-se no centro do então povoado em 1901

Negócios: comércio de secos e molhados, hospedagem e serraria a vapor à margem do Itapocu

Obra pública: contratou e supervisionou a primeira ponte sobre o Rio Itapocu, em 1909

Vida religiosa e escolar: integrou a diretoria da comunidade Evangélica Luterana e cedeu a casa onde começaram missas, cultos e a escola alemã

Memória: dá nome a uma rua em Jaraguá do Sul e a outra em Joinville

Nas imediações de onde hoje fica o banco Bradesco, no centro de Jaraguá do Sul, junto à travessia do Rio Itapocu, funcionavam – entre o fim do século 19 e o início do século 20 -, um comércio com hospedagem e uma serraria movida a vapor. Quem viajava entre Blumenau e Joinville, em um percurso que podia durar dois ou três dias, costumava parar ali para descansar.

O proprietário do estabelecimento era Heinrich Marquardt, imigrante alemão consierado um dos pioneiros do desenvolvimento de Jaraguá do Sul. Ao longo de pouco mais de uma década, ele ajudou a construir e estruturar a cidade; da construção da primeira ponte sobre o Rio Itapocu à participação na organização da comunidade luterana, ele deixou marcas permanentes por aqui.

No ano em que o município completa 150 anos, relembrar a trajetória de personagens como Marquardt ajuda a entender como o antigo povoado se transformou no município de hoje. E quem nos ajudou a reconstruir esta história foi o historiador Egon Jagnow, a partir de uma pesquisa que reuniu documentos, registros e relatos sobre a atuação do pioneiro na formação da cidade.

A imigração pomerana para o Brasil

Da Pomerânia ao Vale do Itapocu

Heinrich Marquardt nasceu em 7 de dezembro de 1863, na Pomerânia, então parte da Alemanha. Filho de Heinrich Marquardt e Wilhelmine Manske, casou-se em 1883 com Wilhelmine Benz, conhecida como Minna, que o acompanhou ao longo de toda a trajetória.

Marquardt faleceu em 1º de janeiro de 1915, em Curitiba, aos 52 anos. Anos depois, seus restos mortais foram transladados para o Cemitério Municipal de Joinville.

As fontes divergem sobre a chegada de Heinrich Marquardt ao Brasil. Uma delas registra que a família desembarcou na Colônia Dona Francisca, atual Joinville, em 1867, seguindo depois para Blumenau, onde se estabeleceu. Outra aponta que a mãe imigrou com os filhos somente após a morte do pai, ainda na Alemanha.

Foi em Blumenau que Marquardt, durante a Revolução Federalista em 1893, participou da defesa da cidade e do interior de Pomerode diante da incursão dos federalistas. Anos mais tarde, mudou-se para o Vale do Itapocu, onde passaria a construir o legado que o tornaria um dos pioneiros de Jaraguá do Sul.

Pioneiros de Jaraguá do Sul em frente à residência de Heinrich Marquardt, em 1898. Da direita para a esquerda: Alvino Walter, Domingos Rodrigues da Nova, Cesar Pereira de Souza, Heinrich Marquardt (sentado), Carl Fritz Vogel e Max Schubert. | Foto: Arquivo histórico

O anfitrião de quem chegava no Vale

Antes de se fixar em Jaraguá, Marquardt esteve ligado à própria engrenagem da imigração na região de Blumenau. O relato de uma religiosa que serviria Jaraguá por décadas, a Irmã Izabel, registra que ela e a família, vindos da Hungria em 1895, foram levados ao barracão de imigrantes de Blumenau pelo encarregado Heinrich Marquardt. Era ele quem recebia, ali, as famílias recém-chegadas de outros países.

Esse traço de acolhimento o acompanhou em Jaraguá. Como ele era pessoa influente e conhecida não só no Jaraguá, mas também em Joinville e Blumenau, quem vinha a negócios ou estava apenas de passagem costumava se hospedar em sua casa.

Antiga serraria Marquardt no Centro de Jaraguá do Sul. | Foto: Arquivo Família Marquardt

O comércio e a serraria no centro do povoado

Em 1901, Marquardt fixou-se definitivamente na área que hoje é o centro de Jaraguá. Abriu, à margem direita do Itapocu, no caminho entre Joinville e Blumenau, um comércio de secos e molhados, com a hospedagem nos fundos.

Por volta de 1904, instalou uma serraria movida a vapor, na esquina das atuais ruas Marechal Floriano Peixoto e Jacob Buck, no núcleo central do povoado. A serraria ficava nos fundos da casa comercial, e a madeira serrada era empilhada para secar no pátio. Marquardt adquiriu ainda diversos imóveis na localidade, e as terras daquelas imediações lhe pertenciam.

O comércio dele não se limitava ao abastecimento local. Marquardt exportava tabaco em folha para a Europa, e mantinha uma seção de enfardamento para preparar a produção que seguia para fora.

A primeira ponte sobre o Rio Itapocu

No início do século 20, atravessar o Rio Itapocu fazia parte dos maiores desafios de quem vivia em Jaraguá. Na margem esquerda, o comerciante Georg Czerniewicz mantinha uma pequena balsa para transportar carroças carregadas de mercadorias e uma canoa para a travessia de pedestres. A estrutura, porém, já não dava conta da demanda.

Em períodos de chuva, o rio se tornava praticamente intransponível. As estradas viravam lamaçais e a travessia era interrompida, isolando principalmente os moradores do Jaraguá, do Rio do Cerro e de Garibaldi e dificultando o transporte de pessoas e mercadorias.

Foi nesse cenário que surgiu a primeira ponte sobre o Itapocu. Em 1909, durante a administração do intendente distrital Victor Rosenberg, Heinrich Marquardt recebeu a responsabilidade de conduzir a obra. Para isso, contratou os carpinteiros Carl Wensersky e Hermann Harbst.

Retrato de Heinrich Marquardt, pioneiro de Jaraguá do Sul, em foto de estúdio do início do século 20, de terno e bigode
Foto restaurada de Heinrich Marquardt (1863-1915), imigrante alemão que se fixou em Jaraguá do Sul em 1901 e ergueu a primeira ponte sobre o Rio Itapocu. Foto: Arquivo histórico

As toras de madeira de lei foram retiradas da mata e preparadas na própria serraria de Marquardt, onde eram transformadas em vigas, pilares e pranchões. Ele acompanhou pessoalmente os trabalhos até a conclusão da ponte, uma estrutura baixa e inteiramente de madeira, erguida poucos metros acima do local onde hoje está a ponte Abdon Batista. A nova travessia facilitou a circulação entre as duas margens do Itapocu e passou a integrar o cotidiano da população.

Povoado de Jaraguá do Sul em 1909, com casas na encosta e a primeira ponte de madeira sobre o Rio Itapocu à direita
O povoado de Jaraguá do Sul em 1909, com a primeira ponte de madeira sobre o Rio Itapocu à direita, construída sob contratação de Heinrich Marquardt. Foto: Arquivo histórico

Mas a travessia de madeira teve vida curta. Em 1911, uma grande enchente arrastou a estrutura rio abaixo, deixando no leito apenas os tocos dos pilares, quebrados pela força das águas. Erguida apenas dois anos antes, a obra de Marquardt resistiu por pouco tempo.

Em março de 1913, o local voltou a receber uma ligação entre as duas margens com a instalação de uma ponte metálica, viabilizada pelo deputado Abdon Batista, que dá nome à passagem até hoje. Das estruturas que ocuparam aquele ponto ao longo do tempo, restou apenas um pilar de pedra no meio do Rio Itapocu, tombado como patrimônio histórico de Jaraguá do Sul em 2012 e ainda visível.

A casa que abrigou duas igrejas e duas escolas

Uma das propriedades de Heinrich Marquardt, na Rua Marechal Floriano Peixoto, tornou-se um dos endereços mais importantes dos primeiros anos de Jaraguá. Sob o mesmo teto começaram atividades que marcariam a história da educação e da vida religiosa do município.

Foi ali que nasceu a Deutsche Schule, a escola alemã que daria origem às atuais escolas Jaraguá e São Luís. Conforme registra o historiador Egon Jagnow, o imóvel também serviu de apoio para a organização da comunidade Evangélica Luterana, recebendo pastores que percorriam a região antes da instalação definitiva da igreja.

Alunos e professor da Deutsche Schule, a escola alemã de Jaraguá do Sul, reunidos em foto de grupo diante da escola no início do século 20
Alunos da Deutsche Schule, a escola alemã de Jaraguá do Sul, em foto de grupo. A instituição deu origem à Escola Jaraguá e à São Luís. Foto: Arquivo histórico

Entre eles estavam Ferdinand Schlünzen, vindo de Brüdertal, que passou a atender a comunidade até assumir o pastorado em 1907, e Otto Kuhr, que esteve em Jaraguá durante uma visita pastoral em 1904. Marquardt também participou da diretoria da comunidade luterana desde a fundação, atuando primeiro como tesoureiro-geral e, depois, como secretário, conforme registram as atas da época.

O aspecto mais curioso dessa história veio alguns anos depois. Embora ligado à comunidade luterana, Marquardt cedeu outra casa de sua propriedade para o início da vida religiosa católica em Jaraguá, entre 1911 e 1912. Conhecido como das Pfarrhaus, ou “casa dos padres”, o imóvel recebeuas primeiras missas e os padres Henrique Moeller e Pedro Franken.

Ilustração da casa de tijolos que abrigou a Deutsche Schule de Jaraguá do Sul, recriada por inteligência artificial a partir de foto histórica, para fins ilustrativos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial, recriada a partir de foto histórica da Deutsche Schule. Não constitui registro fotográfico documental e serve apenas para ilustrar a matéria.

Assim, um mesmo pioneiro participou da organização da comunidade luterana e ofereceu o espaço onde os primeiros católicos da cidade começaram a se reunir, um retrato de como as primeiras instituições de Jaraguá do Sul se estruturavam a partir da colaboração entre os moradores.

O negócio de Garibaldi e a chegada da luz elétrica

Por volta de 1905, Heinrich Marquardt adquiriu, em Garibaldi, um estabelecimento comercial e industrial que reunia moinho de milho, queijaria e outras atividades. Mais tarde, entregou a administração do negócio ao filho Walter Marquardt, mas o empreendimento continuou pertencendo à família.

Foi ali que surgiu um dos marcos da história de Jaraguá do Sul. Segundo pesquisa do historiador Egon Jagnow, Walter Marquardt, com o auxílio do eletricista Willy Sonnenhohl, instalou o primeiro gerador de energia elétrica do município e implantou a primeira iluminação pública.

Embora executada pelo filho, a iniciativa nasceu dentro do empreendimento criado por Heinrich Marquardt, ampliando o legado da família no desenvolvimento da cidade.

Primeira estação ferroviaria de Jaraguá do Sul

A ferrovia e a ida para Joinville

Em 1907, Heinrich Marquardt assumiu um novo desafio ao contratar trechos da construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no ramal entre São Francisco do Sul e Porto União. A obra, executada entre Rio Natal e Rio Vermelho, incluía a difícil subida da Serra do Mar e estava entre os trechos mais complexos da ferrovia. Para se dedicar ao empreendimento, entregou ao filho Walter a administração do negócio da família em Garibaldi.

Concluída a etapa da ferrovia, Marquardt encerrou seu ciclo em Jaraguá do Sul. Em 1911, vendeu o comércio e a serraria e viajou com a esposa, Minna, para a Alemanha, onde adquiriu máquinas para uma indústria. Na volta ao Brasil, o casal fixou residência em Joinville.

Rua Henrique Marquardt no bairro Czerniewicz

O nome que ficou na cidade

O legado de Heinrich Marquardt continuou na própria família. Pai de uma numerosa descendência, viu filhos e netos seguirem caminhos no comércio, na indústria e em outras atividades que ajudaram a impulsionar o desenvolvimento da região. Um dos filhos, Roberto Marquardt, é lembrado como um dos primeiros dentistas de Jaraguá do Sul.

Ralf Marquardt recebe a homenagem dos deputados Gilmar Knaesel e Simone Schramm em sessão solene referente aos 180 anos da imigração alemã, em 2004, ao lado do painel dedicado à Família Marquardt. À esquerda, Ralf r. Foto: Arquivo pessoal

Entre os descendentes, destacou-se também o neto Heinz Marquardt, que, ao lado do pai Walter, participou da criação da Malharia Marquardt, fundada em 1937 e considerada uma das pioneiras da indústria têxtil do município.

O reconhecimento ao pioneiro permaneceu ao longo das décadas. Heinrich Marquardt dá nome a uma rua em Jaraguá do Sul e a outra em Joinville, em referência às contribuições que deixou para a região.

Em 2004, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina dedicou um painel à família durante a sessão solene pelos 180 anos da imigração alemã no Brasil. Vinte anos depois, em 2024, a Prefeitura de Jaraguá do Sul homenageou seus descendentes durante as comemorações pelos 90 anos de emancipação do município.

Placa da Prefeitura de Jaraguá do Sul em homenagem à família de Henrique Marquardt pelos 90 anos de emancipação do município, em 2024
Placa entregue pela Prefeitura de Jaraguá do Sul a Família de Heinrich Marquardt, recebida pelo tataraneto Roberto Marquardt, em 26 de Março de 2024, pelos 90 anos de Emancipação do Município de Jaraguá do Sul. Foto: Arquivo pessoal

Como isso impacta sua vida?

Quem percorre hoje o centro de Jaraguá do Sul, atravessa o Rio Itapocu ou passa por bairros como Garibaldi e Rio do Cerro convive, muitas vezes sem perceber, com parte do legado deixado por Heinrich Marquardt. A primeira ponte sobre o rio, o início de escolas e comunidades religiosas, os empreendimentos que deram origem a novos negócios e o desenvolvimento que sua família levou adiante ajudam a explicar como um pequeno povoado cercado por mata se transformou na cidade que existe hoje.

Veja o vídeo

Notícias de Jaraguá no seu WhatsApp Fique por dentro de tudo o que acontece na cidade e região.
Entrar no Canal

Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Hospedagem por ServerDo.in
©️ JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região - Todos os direitos reservados.
wesdev.com.br