Colunistas | 05/06/2026 | Atualizado em: 08/06/26 ás 07:45

Um ano de crônicas, confusões e histórias que quase não foram publicadas em Jaraguá do Sul

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Um ano de crônicas, confusões e histórias que quase não foram publicadas em Jaraguá do Sul

Foto: Produzida por IA/JDV

Eu tinha o sonho de ter uma coluna fixa em jornal. Isso foi no século XX, quando eu escrevia meus textos na máquina de escrever, colocava a lauda em um envelope e pegava o ônibus para fazer a entrega, em mãos, ao saudoso jornalista Fernando Cunha, na recepção do centenário Diário Popular/RS.

Adiante, mudei para Santa Catarina e conheci o professor, engenheiro e escritor, Honorato Tomelin, autor de “O Oitavo Anão”, que me aconselhou:

Marcelo! Não caia na armadilha de ter coluna semanal em jornal. Esses caras acabam falando sempre dos mesmos assuntos.

Nunca mais esqueci a recomendação. Mas o meu ego me impediu de segui-la.

Fiz vários cursos de escrita, me aprimorei no gênero da crônica e deixei a página 2 dos jornais, onde ficam as cartas dos leitores e as opiniões e passei a ter uma coluna no meio do jornal, com o meu nome. Mas, como disse antes, não esqueci a orientação do professor Tomelin, só aceitei com a condição de ter participação quinzenal, para dar tempo de oxigenar as ideias e mesclar meus cinco assuntos: café, livros, gatos, futebol e confusão.

>> Leia também: Escritor jaraguaense confessa furto de carro e explica o que realmente aconteceu

Comecei em uma revista promocional, que após cinco crônicas publicadas, foi vendida. O sujeito que comprou percebeu que era um golpe, pois o dono anterior foi-se embora com o dinheiro recebido dos anúncios das próximas edições. Tendo somente despesas pela frente, a revista faliu.

A segunda revista que participei era ambiental. Os demais colunistas escreviam sobre os temas da área: recursos hídricos, mudanças climáticas, ecossistemas, arquitetura… e eu contava uma história livre, para quebrar o gelo, na última página. Durou cinco textos e faliu. Ninguém compra revista ambiental.

Depois ganhei alguma notoriedade, quando apareci numa pesquisa que apontava as 30 celebridades de Jaras (Essa é a cara de Jaraguá do Sul – A Notícia) e passei a assinar colunas em vários veículos, passando de 50 textos, em muitos jornais, blogs e sites.

Nesse mês de maio, estou completando um ano de publicações quinzenais no JDV, o que é um marco significativo, para quem tem a obrigação de contar um causo novo a cada 15 dias, sem utilizar a IA – estudo recente de um grande jornal do País, revelou que em 8,9% de suas colunas havia texto usando a Inteligência Artificial.

Segui a estratégia de falar de assuntos correlatos a cada duas colunas e fui dar uma olhada no que produzi nesse período: comecei me apresentando, falando dos meus 30 anos de publicações; comentei sobre o cheiro de perfume das prostitutas; sobre o cheiro de lenha dos machos alfa; esclareci que não como nada que nada; que o médico me proibiu de ter prazeres à mesa; contei que passei o dia dos namorados com um colega (em viagem de trabalho); que uma mulher me pediu para ir de mãos dadas em um voo; que minha gata Berenice foi anunciada no OLX em troca por um celular usado (peguei a persa e nunca entreguei o celular); que sempre erro a roupa quando não tem recomendação clara nos convites; que ganhei um dinheiro em aposta de resultados de futebol; que parei de jogar bola mas que as minhas chuteiras estão prontinhas para voltar; que fui substituto de Papai Noel em um hospital; fiz promessas de Ano Novo e parei de cumpri-las na crônica seguinte; contei que já furtei um carro (quem só leu o título parou de falar comigo); que tive um amigo ogro e sensível; que a vida no trabalho pode ser boa; publiquei uma seleção de pensamentos de um filósofo que conheci e escrevi sobre uma traição que foi publicada na mesma semana que um caso real explodiu na cidade e as pessoas – que não leram até o final – acharam que era uma reportagem: “Oh! Escreveu a história do casal lá, né?”.

Nesses doze meses de JDV, escrevi alguns textos sob encomenda: “Lamas, vem cá, bem que tu poderias escrever sobre cheiro de homem, né?” / Marcelo! Vais escrever sobre amizade no trabalho?”. Em contrapartida, também deixei de publicar dois textos prontos e revisados, para evitar problemas com o Judiciário e com os Legendários.

Ainda bem que consegui preencher todo o espaço desta crônica, senão escreveria sobre o grupo do meu condomínio, que virou conversas de vendas de produtos entre os moradores, cuja exposição, poderia me deixar mal com a vizinhança.

Parafraseando o pai da crônica brasileira, Rubem Braga (1913-1990): Escrever é uma tolice deliciosa. Quase sempre a gente escreve para não fazer nada e acaba trabalhando mais do que se fizesse alguma coisa.

Agradeço aos leitores que me acompanharam até aqui e as minhas duas conselheiras editoriais, lá de casa, pela paciência.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.

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Marcelo Lamas

Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.

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