Imagem: IA/JDV
Ao longo da minha longa exposição pública, escrevendo por aí, posso ter passado a impressão de que gosto de futebol. Pode parecer antipopular dizer isso nessa época de Copa do Mundo, mas preciso deixar claro: não gosto de futebol!
Tirei um tempo para fazer uma lista de argumentos comprobatórios:
✓ Em 1931, meu bisavô, o português Manuel Euzébio, junto com seus amigos fundou um time de futebol de bairro, no RS, ativo até hoje;
✓ Como era a única da família alfabetizada, a minha avó, Doralice, aos 15 anos, foi a redatora da ata de fundação do clube e foi, por consequência, a fundadora mais longeva, tendo recebido todas as homenagens possíveis, ainda em vida;
✓ Ela ficou responsável pela compra e manutenção dos uniformes (fardamentos, no RS) dos atletas. O nome dessa função era guarda esportes (hoje, roupeiro). Quando chegou a cidade, um zagueiro, o Chico Lamas, ela foi pegar o número da botina (hoje, chuteira) que compraria na sequência. No intervalo do seu jogo de estreia, no G.E. São Geraldo, ele ofereceu uma bergamota para a jovenzinha, e ali começava a nossa família.
✓ O meu pai e os meus tios foram jogadores de futebol. A casa dos meus pais é um minimuseu com muitas fotografias dos times das décadas de 1940 a 1970, incluindo muitas faixas de campeão, que o meu pai, o Seu Paulo, tem orgulho de dizer: “Essas são as de Tricampeão com G.A. Farroupilha”.
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✓ Fui mascote e entrei em campo em todas as partidas da Série A, de 1985, com o Brasil de Pelotas. Não dei bola para o Zico, quando todos os meus colegas foram abraçá-lo, afinal ele era do outro time.
✓ Por conta de toda essa sombra dos sobrenomes, demorei a me interessar em jogar futebol, mas aos 13 anos, um amigo de escola me obrigou a entrar no time do colégio e depois eu viria a jogar nas categorias de base do mesmo time que o meu pai;
✓ Ajudei meus amigos gaúchos e catarinenses a fundar dois clubes de futebol, sendo que um deles, o Americano FC Pelotas, tem 38 anos de existência. Compramos o primeiro uniforme com uma premiação do jogo do bicho (a mega sena da época). Também fizemos muitas rifas de frango assado com vinho, para comprar bola e pagar as inscrições em torneios;
✓ Fui treinador de um time infantil e do time feminino da firma;
✓ Economizei por dois anos para comprar o ingresso de inauguração da Arena do Grêmio, diziam que o valor seria impagável. Exagerei um pouco na contenção de gastos e consegui levar a família inteira e incluindo, dois anos depois, na Copa do Mundo, aqui no Brasil, em família, novamente;
✓ Fui convidado para uma exposição de camisas de futebol dos colecionadores catarinenses, embora eu não seja um colecionador de fato, tenho algumas dezenas, mas as uso no dia a dia, o que não colabora muito com o relacionamento conjugal;
✓ Meus itens pessoais, como pratos com formato de campo de futebol e desenho de bola são bastante requisitados para coquetéis temáticos em empresas;
✓ Fui campeão do Bolão do Brasileirão da firma e meus “amigos” me acusaram de ser sortudo, porque havia 9 palpites aleatórios lá no começo do campeonato, tipo, quem vai ter a defesa menos vazada, que gabaritei e ultrapassei os favoritos, que ficaram o ano inteiro competindo entre si. No ano seguinte, mudaram as regras. Só palpites rodada a rodada. Fui o primeiro bicampeão.
✓ Joguei uma partida entre torcedores na Arena do Grêmio. Fui selecionado através de um concurso: “Minha história com o Grêmio”. Recebi um e-mail com o Felipão apontando: Você está convocado! Preciso esperar mais umas décadas para deixar minha história com o Grêmio pública, quero dizer, tenho que esperar caducar;
✓ Meu tio, Francisco Lamas, é uma referência mundial como desbravador de estádios, contabilizando mais de 2.800 templos do futebol visitados e fotografados, em mais de 20 países;
✓ Tenho uma prateleira só de livros de futebol na minha modesta biblioteca, incluindo um Galeano, original em espanhol, que ganhei dos meus afilhados. Neste livro ele conta a história da placa que colocava na porta da casa: “Fechado por motivos de futebol”. E durante o jogo não atendia ninguém. Também não gosto de ajuntamento pra ver jogo;
✓ Minha cônjuge é torcedora do rival. Tem uma bandeira enorme do inimigo no nosso armário;
✓ Tem uma bola da Copa de 1986, como decoração, na sala de casa;
✓ Não coleciono figurinhas da copa porque tenho medo de me viciar em futebol.
Meu colega escritor, jornalista Henrique Porto, a enciclopédia do esporte, já me falou mais de uma vez, que eu deveria escrever um livro sob a temática do ludopédio. Acontece que, como disse lá no começo dessa crônica, eu não gosto de futebol.
Gostar é um verbo insuficiente, impotente, irrisório. O futebol é uma fatia bem considerável da minha vida e eu não sou adepto das autobiografias.
Parafraseando Luis Fernando Verissimo (1936-2025): “O futebol é o único esporte em que a ignorância das regras não impede ninguém de jogar ou de criticar”.
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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.
Marcelo Lamas
Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.